Pedro. Hoje visitei o seu site. Gostei muito. Mas o que mais me deixou intrigada foi ver o oferecimento acintoso de lulas jovens a dorê, como uma das mais badaladas iguarias que são servidas no seu restaurante. Pergunto: você não se preocupa nem um pouco com a ecologia ou é declaradamente desumano? Porque se as lulas são jovens não seria necessário aguardar seu desenvolvimento para pescá-las? Ceifa-las ainda em tenra idade não constitui crime? Amanda Consuelo.
Cara Amanda: As lulas jovens que costumo servir ainda não chegaram à adolescência. São virtualmente crianças. Mas tal fato não constitui nenhuma heresia culinária. Você já experimentou comer vitela? Ou leitãozinho assado pururuca? Ou as famosas angulas espanholas que nada mais são que rebentos de enguias. Ou o cordeirinho mamão, que é abatido com quatro meses? Ou ovas de tainha gratinadas? Eu disse ovas. Tudo porque há certos pratos que exigem na sua feitura o animal jovem, que costuma ser mais tenro e saboroso. Pense num carro novo, num vinho ou numa mulher jovem (rapaz no seu caso). Pode custar mais caro ou dar mais trabalho para obter. Mas costuma ser muitíssimo gratificante. Além do mais que diferença farão duas dúzias de lulas no universo dos moluscos comestíveis. Porque se você não quiser comê-las alguém vai fazê-lo no seu lugar. Sem esquecer que quando uma lula resolve reproduzir-se expele trocentas ovas que infestarão os mares se alguém não der cabo delas. Bem por isso quero convidá-la a degustá-las. Tenho certeza que você vai amar. Ou pelo menos mudar de idéia. A natureza não erra. E você passará a sentir-se um legítimo predador natural das lulas marítimas e incumbido de impedir seu desarrazoado desenvolvimento que poderia infestar o oceano e causar irremediável desequilíbrio ecológico. Um forte abraço. Pedro.
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